Aos 20 anos, filha de seringueiros se torna empresária e mostra que, no mundo dos negócios, o céu é o limite para quem não tem medo de empreender
Jorge Natal
Real e sonhadora, Fiama vive na pequena Porto Walter, cidade de aproximados dez mil habitantes, distante 70 quilômetros de Cruzeiro do Sul, e alcançada apenas pelo transporte aéreo ou fluvial. De avião monomotor, a distância entre Porto Walter e Cruzeiro do Sul é de apenas 20 minutos. De barco, navegando pelo rio Juruá, esta viagem pode durar um dia. Quando se chega a cidade, à primeira impressão é que aquele cenário bucólico, com o rio Juruá banhando os barrancos e lambendo a cidade de forma preguiçosa, quase lânguida, foi tirado do clássico ‘Cem anos de solidão’, do colombiano Grabiel Garcia Maquez. Os casarões, as igrejas e as vielas guardam lembranças dos tempos áureos da borracha, apogeu de uma economia que gerou muitas riquezas para coronéis de barranco e comerciantes. Um tempo de riquezas que Fiama, quase uma menina, quer trazer de volta, pelo menos no seu caso particular.
Valdeci Coelho de Souza e Raimunda Nonata de Oliveira Lima, ambos com 41 anos, procuraram, eles mesmo, a resposta para a pergunta que começou a lhes afligir desde que desceram o barranco da colocação em que viviam no seringal em busca do desconhecido. Encontraram a resposta quando compraram um pequeno casebre na periferia da cidade e ali passaram a vender vinhos de açaí e buriti, duas iguarias muito apreciadas na região. Apesar de tudo, o casal conseguiu, à custa de muitas privações, uma pequena poupança. Que fazer? Por meses essa foi a pergunta que não queria calar até que Fiama surgiu com a resposta: “Deixem eu comprar e revender roupas”, pediu, serena, segura. Ali começava uma nova história para aquela família.
O início do negócio – Maria Fiama Lima de Souza tinha acabado de completar 18 anos. O detalhe da idade era porque a jovem precisava se deslocar até Goiânia (GO), que é uma espécie de Meca para quem vai às compras de confecções. “Fui com uma tia e quase não opinei em nada, mas observei muito”, revela. Dali em diante, com as economias dos pais, passou a viajar, sozinha, para São Paulo e Fortaleza, para comprar a confecção com a qual montou a mais sortida e movimentada boutique de Porto Walter..
Depois daquela viagem a Goiana, dois anos depois, a jovem montou uma microempresa, contratou um contador e alugou um ponto com 40 metros quadrados no centro da cidade, a Confecções Baby. A loja vende roupas para crianças e adultos. “Temos roupas simples e de marcas famosas como a Calvin Klein, Rimas, Sglum, Rat Boy, Base e Morena Rosa”.
Fiama vende à vista e a prazo porque, além de conhecer as pessoas da cidade, já tem uma clientela cativa, principalmente formada por servidores públicos. “Ela é uma pessoa simpática e que conhece muito do ramo”, diz a amiga e cliente Fátima Rodrigues da Silva. “Admiro a ousadia dela”, completou a balconista Samara Menezes Coelho.
Expansão e sonho
Ela pretende abrir uma filial em Cruzeiro do Sul e passar a morar na segunda maior cidade do Estado. “Não é que goste de assumir riscos, mas é preciso saber aproveitar bem as oportunidades”, assim concebe a comerciante, dizendo que pretende fazer um financiamento em um banco estatal. O novo domicílio tem, ainda, outra razão: Fiama quer realizar o sonho de fazer uma faculdade de Direito. Se aos 20 anos, ela conseguiu entrar para a galeria dos comerciantes bem estabelecidos, alguém duvida que possa vir a trocar o balcão pelos tribunais?
Para ser uma empreendedora ou empresária bem sucedida, ela já tem os caracteres necessários: conhece o ramo da atividade; tem facilidade no trato com pessoas; bom senso de organização; sabe tomar decisões; tem jogo de cintura para se sair bem em situações de risco; sabe delegar responsabilidades; é motivada e tem amor pelo que faz, além de lutar por suas idéias. Mais que isso: parece não ter medo de fracassar, razão pela qual tem sempre uma alternativa, uma espécie de as na manga, como, por exemplo, o sonho de estudar Direito. Craveiro Costa ou Gabriel Garcia Marquez bem que deveriam ter conhecido esta menina, uma valente comerciante da floresta.
Tribuna do Juruá